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o pé de fé

raízes para quando faltar chão.

bilhete de entrada
hoje, uma crônica que nasceu da voz de outra.
a frase é de Eliziane Berberian, no podcast Cria Raiz.
ela disse que queria plantar “um pé grandão de fé” na casa dela.
a imagem ficou em mim, batendo forte, e desse impacto nasceu o texto abaixo.
porque às vezes a palavra de alguém vira raiz na vida da gente.

segue mais um pedaço:

eu ouvi e não esqueci.
quero plantar um pé grandão de fé lá em casa”, disse ela.

a frase me atravessou
como quem ouve uma oração.
me lembrou que fé também é coisa de plantar,
regar,
colher.

desde que a Mi se foi
tenho vivido assim,
tentando manter um chão firme
pra mim e pras crianças.
às vezes sinto que só um pé de fé
pode sustentar esse quintal.

eu não planto café,
mas faço o de todo dia.
não planto milho,
mas arrumo a mesa.
não planto feijão,
mas preparo a mochila,
dou banho,
conto história.

e nisso também tem fé.
fé pequena, repetida.
fé que não aparece,
mas segura o dia.

tem manhã em que eu não sinto nada.
a fé dorme.
mesmo assim passo o café.
mesmo assim falo com ela baixinho,
como quem insiste numa planta que ainda não brotou.

fico pensando na Maria Clara, no Francisco.
queria que, quando a chama deles fraquejar,
eles tenham onde se encostar.
que encontrem, na memória da nossa casa,
um pé de fé sempre vivo,
mesmo torto, mesmo marcado,
mas com raízes profundas.

às vezes falo sozinho
enquanto passo o café.
agradeço pelo que resiste,
peço força pro que ainda falta.
e percebo que, de algum jeito,
esse gesto simples
é também plantar.

um pé de fé não nasce da noite pro dia.
vai crescendo devagar,
no silêncio das manhãs,
no barulho pequeno dos passos da Olívia pela casa,
no abraço cansado que ainda protege.

se um dia perguntarem o que plantei,
quero poder dizer:

plantei fé no meio da falta.
plantei fé no meio do cansaço.
plantei fé pra que meus filhos tenham sombra
quando o sol pesar demais.


— R.
a pia tá limpa, por hoje.

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