o preço do cuidado
às vezes eu esqueço de cuidar de mim.
não por distração.
por estratégia.
se todo mundo depende de mim,
ninguém me deixa.
ninguém me abandona.
ninguém vai embora sem olhar pra trás.
é assim que funciona aqui dentro:
cuidar é garantir presença.
é comprar permanência com afeto.
não falo isso com orgulho.
também não falo com vergonha.
falo com lucidez.
porque tem hora que percebo:
as formas de amor que eu ofereço
são todas exageradas.
cuido demais.
protejo demais.
me coloco no centro da responsabilidade
pra não ficar no canto do abandono.
e chamam isso de bondade.
mas não é bondade.
ou não só.
é medo.
é pacto antigo comigo mesmo.
é a forma que encontrei de negociar afeto
num mundo onde eu sempre acho
que posso ser deixado se eu falhar.
eu romantizei essa história por anos.
me dizia que eu era forte,
generoso,
adulto demais.
mas a verdade é mais torta:
eu cuido de todo mundo
pra não ter que cuidar de mim.
porque se eu paro,
se eu descanso,
se eu escuto minha própria falta,
o silêncio assusta.
então eu sigo ocupando o corpo
de compromissos,
responsabilidades,
como quem ocupa uma casa vazia
pra não ouvir o eco.
é bonito.
é útil.
é até amor.
mas também é barganha.
um jeito de pedir:
fica.
não vai embora.
não me solta.
eu sei disso agora.
e saber dói,
mas também liberta.
porque talvez seja hora
de aprender o outro lado do cuidado:
o que se oferece pra dentro,
não pra fora.
o que não compra nada,
não garante ninguém,
não negocia presença.
o cuidado que não pede retorno.
o cuidado que só sustenta.
o cuidado que não tenta impedir
que o mundo me deixe,
e ainda assim se mantém.
talvez seja isso
o começo de me cuidar
sem testemunhas.
não como moeda.
mas como casa.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.



Nossa! Me retratou este texto.
Me tocou de uma forma tão profunda ao me ver refletido que ainda vai demorar para eu processar