fala com a mãe
a pergunta vem sempre do mesmo jeito,
como quem não imagina outra possibilidade.
— fala com a mãe.
às vezes é na escola.
às vezes no consultório.
às vezes no trabalho, quando aviso que não posso.
a frase atravessa o balcão com naturalidade.
sem maldade.
sem intenção.
quase um reflexo.
o mundo ainda acredita
que cuidado tem endereço fixo.
eu respondo que sou eu.
que pode falar comigo.
que a mãe morreu.
não digo tudo de uma vez.
aprendi a dosar a informação.
há um segundo de silêncio.
um pedido de desculpa apressado.
um ajuste de postura.
como se o erro tivesse sido apenas de vocabulário,
não de estrutura.
depois que ela morreu, muita coisa mudou.
mas muita coisa não mudou nada.
os dias seguem com
mochila,
lanche,
uniforme,
banho,
lição,
febre,
medo noturno,
acordar cedo.
o cuidado não começou ali.
ele só ficou inteiro.
sem revezamento.
sem intervalo.
sem testemunha.
em casa, funciona.
a rotina aprende a respirar do jeito que dá.
o corpo se organiza.
o amor encontra outras formas de existir.
o problema é fora.
fora de casa, a pergunta insiste.
— você que cuida?
— mas não tem ninguém?
— e no trabalho, como faz?
há sempre uma surpresa educada
quando descobrem que sou eu quem resolve.
uma dúvida discreta, quase gentil.
como se o cuidado fosse um idioma
que homens falam com sotaque.
no trabalho, há uma dificuldade silenciosa
de entender limites.
quando um pai coloca restrições,
elas parecem negociáveis.
quando uma mãe coloca,
parecem evidentes.
o cuidado masculino ainda soa como exceção.
algo que precisa ser explicado,
justificado,
provado.
a sobrecarga não nasce da ausência do outro,
mas da forma como o mundo distribui expectativas.
mesmo quando o pai está,
o mundo continua chamando a mãe.
mesmo quando ela não está mais.
a escola não divide.
o balcão não divide.
o formulário não divide.
e não se trata de heroísmo.
não há nada de extraordinário
em cuidar dos próprios filhos.
há cansaço.
há erro.
há improviso.
há dias em que tudo cabe.
há dias em que não cabe nada.
cuidar não é identidade.
não é discurso.
não é performance.
é acordar.
é faltar.
é insistir.
é responder de novo
à mesma pergunta.
e amanhã,
quando perguntarem pela mãe,
eu respondo.
como sempre.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.



🩵❤️🩵