não foi por causa deles
que eu continuei.
não houve epifania.
não houve frase salvadora.
não houve promessa.
houve rotina.
mochila aberta na mesa.
uniforme esquecido na cadeira.
um dente mole que precisava de atenção
na mesma semana em que eu mal conseguia respirar.
depois que a Mi morreu,
eu não tive tempo de cair inteiro.
não porque eu fosse forte.
mas porque existir ao lado deles
deslocou o eixo do desespero.
o chão não voltou.
mas mudou de lugar.
o vínculo não salvou.
não iluminou.
não resolveu.
reorganizou.
havia café para fazer.
havia tarefa para assinar.
havia medo noturno às três da manhã.
havia perguntas que eu não sabia responder.
e, no meio disso,
eu ainda estava ali.
não foi “por eles”.
foi com eles.
há uma diferença.
o amor não me tirou da dor.
mas impediu que ela ocupasse tudo.
um milímetro de deslocamento
já é suficiente
para o mundo não desabar inteiro.
vínculo não é clarão.
é ajuste.
é o corpo entendendo
que ainda precisa levantar
porque alguém está aprendendo a amarrar o próprio sapato
e olha para você
como se você soubesse o caminho.
eu não sabia.
mas fiquei.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.



E que bom que deslocou, pra que você conseguisse ficar ♥️
Perfeito!!! A rotina é o que me salva, sabia? Ótima semana.